Como foram as celebrações do primeiro centenário
«A respeitabilidade do historiador após a sua morte fez que a comemoração dos cem anos do nascimento fosse digna.
A comemoração do centenário do nascimento de Alexandre Herculano foi impressionante. No Diário de Notícias, tomou toda a primeira página desse dia [num formato que é o dobro do actual] e a terceira. Na página interior, estavam impressos poemas de louvor a Herculano, fotografias de descendentes e da residência onde se exilara em Vale de Lobo. Até a espingarda de caça (na foto) teve direito a figurar na reportagem. No dia 29, as comemorações ocuparam ainda metade da primeira página do jornal e a editora que publicava os livros e estudos de Herculano anunciava numa coluna de alto a baixo todos os títulos à disposição (à esquerda). Nos dias seguintes, manteve-se um noticiário constante.» Ler no Diário de Notícias.
Se fosse apresentador de TV Herculano seria muito lido
«Para Rui Ramos, o esquecimento do historiador mostra o fracasso do sistema educativo.
Há 200 anos, Alexandre Herculano nascia em Lisboa no Pátio do Gil. 133 anos após a sua morte, não há memória dessa particularidade da sua biografia no referido pátio e o que se encontra ao visitar-se o local é um tapume que cobre a visão de destruição dessa Lisboa antiga.
A poucos metros do taipal amarelado fica a casa onde vivia a fadista Amália, mas, apesar da proximidade, ninguém ali sabe onde é o tal Pátio do Gil. Na taberna ao lado do pátio desaparecido a resposta revela o mesmo desconhecimento do ex-vizinho ali nascido. Alexandre Herculano já não mora ali, nem "existiu" naquele sítio para esta geração de lisboetas que dele conhecem melhor as avenidas com o seu nome e, talvez, o facto de ter morrido distante, só e longe do poder que o venerava, na ribatejana Quinta de Vale de Lobo. Esse ignorar da dimensão nacional da personalidade do historiador também se verifica com as autoridades da cultura oficial, situação remediada à última hora com o anúncio da realização avulsa de cerimónias para assinalar a data do bicentenário do nascimento de Alexandre Herculano.» Ler no Diário de Notícias.
Um domínio historiográfico de 130 anos
«É impressionante o facto de a História de Portugal de Herculano ter permanecido como uma obra que dominou o medievalismo português durante cerca de 130 anos. Este facto representa talvez mais o nosso atraso historiográfico do que o valor (inegável) da obra. É uma das manifestações mais claras da dificuldade com que se impôs entre nós a historiografia científica.
Com efeito, sem negar o talento de Herculano na reconstrução dos factos a partir dos indícios documentais devidamente seleccionados e criticados, tem de se reconhecer que muitas das suas concepções de base são contestáveis. Por exemplo, o igualitarismo social dos concelhos. De resto, confundindo a história social com a história institucional e ignorando o sentido feudal do exercício do poder, propõe interpretações inaceitáveis de alguns factos, das cartas de foral e de outros textos jurídicos. As suas ideias municipalistas, no entanto, permaneceram até perto da nossa época como justificação de concepções políticas em termos de descentralização do poder estatal. Na História da Inquisição dá largas a um anticlericalismo faccioso.» Ler no Diário de Notícias.
Alexandre Herculano: Homem sem fronteiras
«Alexandre Herculano era progressista e conservador, um católico contra o clero, político jornalista. No bicentenário do seu nascimento, redescobre-se um inovador, um revolucionário
Alexandre Herculano nasceu há dois séculos. Viveu 67 anos. O tempo suficiente para ser poeta, historiador, político, jornalista, agricultor, romancista, polemista, tradutor. O suficiente para ser um inovador do seu tempo. Para, hoje, data do seu aniversário, ser importante falar dele.» Ler no Jornal de Notícias.
Graça Moura: "Portugal não mudou assim tanto"
«Vasco Graça Moura afirma que problemas políticos do país são similares aos do século XIX
Há 32 anos, poucos meses após o centenário do falecimento de Alexandre Herculano - efeméride que, ao contrário da actual, mereceu um amplo apoio das entidades oficiais -, Vasco Graça Moura publicou um ensaio sobre a poesia do autor de A voz do profeta. Apesar desse estudo (e de ser leitor assíduo dos seus livros desde tenra idade), recusa o epíteto de "especialista" na obra de Herculano, que considera, a par de Garrett, das mais importantes de todo o século XIX português.» Ler no Jornal de Notícias.
Nem misturado com instruções da máquina de lavar roupa
«Estudo da obra de Alexandre Herculano está ausente dos currículos de Português, quer no Ensino Básico, quer no Secundário. Defensores do estudo dos autores canónicos da nossa língua lamentam que o texto literário surja à mistura com cartas, relatórios, actas e instruções de electrodomésticos. E acreditam que o imaginário medieval da obra de Herculano conquistaria os adolescentes.
Foi o iniciador do romance histórico em Portugal. O imaginário medieval presente nas suas obras, com personagens semelhantes às de filmes e séries televisivas que encantam a juventude, seria o condimento bastante para cativar os adolescentes ávidos de aventuras.
Contudo, 200 anos volvidos após o seu nascimento - que se comemora hoje -, Alexandre Herculano é um desconhecido para a grande maioria dos estudantes portugueses, inclusive, para os que concluem a área de Humanísticas no Ensino Secundário.
Vozes críticas dos currículos da disciplina de Português lamentam que o estudo da literatura tenha sucumbido à relevância dada à avalanche de textos informativos e pragmáticos e que o texto literário passasse a ser encarado como mero tipo de texto.» Ler no Jornal de Notícias.
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